7 de ago de 2016

O Brasil sabe fazer uma festa animada. O que não sabe fazer é um País decente!

Surrupiado do Rodrigo Constantino
 
 
Não vi a abertura toda da Olimpíada, pois por algum motivo estranho a NBC resolveu transmitir com atraso para os Estados Unidos. Mas o que vi, achei bonito. Fico aliviado por ter dado tudo certo. Dou até um desconto pela parte do proselitismo ideológico, pelo “aquecimento global” (quem ainda acredita nisso?), pelos indiozinhos, pelo funk e até pela Regina Casé glamourizando as favelas.
A festa foi bonita e animada, apesar de ver alguns exageros por aí na reação (“a mais linda do planeta, quiçá da galáxia”). Gisele Bundchen super animada e linda. Guga, um cara do bem, emocionado. Vanderlei acendendo a pira foi o ponto alto. Tudo bem legal. Ou quase tudo.
Houve o lado cafona e jeca, politicamente correto, com as “minorias empoderadas”. O esquecimento dos imigrantes italianos e de São Paulo, que carrega a economia nas costas, foi imperdoável. Ainda assim, uma bela festa. Só que não posso me calar diante do ufanismo que ela produziu, mesmo que perca alguns leitores por isso.
Sinto muito ser o estraga-prazeres tão cedo assim, mas é que o brasileiro continua otário! A turma afetada que fala “chupa seu vira-lata!” e que celebra a espetada nos “estadunidenses imperialistas” com o 14-Bis não entende que a idiotice vem justamente de achar que tudo é uma maravilha só porque fizemos um belo e animado espetáculo. O que importa é o “day after”, gente, a dura realidade depois da festa.
A violência continua matando mais que guerra civil, o trânsito idem, a burocracia ainda é asfixiante, os impostos escorchantes, os políticos corruptos, a “educação” um lixo, a saúde pública um caos etc. Lamento informar, mas o custo de nossa malandragem ainda é altíssimo, a começar pelo da própria festa: R$ 270 milhões! E a reação dos ufanistas, que agora têm o maior orgulho do mundo por ser brasileiro, é só mais uma evidência de como somos bem otários mesmo. Um leitor escreveu:
A Brasucada beira a infantilidade, se a festa for bonita não importa o quanto vamos pagar. É bem o espírito do Brasuca que sai do país e volta entulhado de quinquilharias só porque lá fora é mais barato. Falta muita educação para um povo que só pensa em festa. Essa conta vai tirar o couro da classe pagadora de impostos e expor os pobres ainda mais à pobreza.
Os que estão morrendo de orgulho de ser brasileiro deveriam refletir sobre o que é motivo de orgulho para uma nação. Terei algum orgulho do Brasil no dia em que ganharmos ao menos um Prêmio Nobel. E não vale o da paz, que até terrorista já ganhou. Tem que ser de física ou química. Unzinho só para contar história, já que até los hermanos conseguiram essa façanha…
Sim, sabemos fazer uma boa festa. Mas esse nunca foi nosso problema. Ou, por outra: esse é justamente o nosso problema! Sabemos farrear. Somos cigarras que adoramos o Pão & Circo. O que NÃO sabemos fazer direito são escolas, hospitais, vias seguras e governos limitados. Eis o problema. Um leitor resumiu bem: “É a velha metodologia brasileira de uma grande parte da população com a cultura de mostrar que ‘vive bem’ e deixando as contas atrasarem!”
Não me levem a mal. Sei que o homem, especialmente o brasileiro, precisa de um entorpecente de vez em quando. Eu mesmo prestei homenagens a Baco ontem. Uma breve fuga da dura realidade se faz necessária para alimentar a esperança, a última que morre. Mas que seja breve. Pois o realismo também é fundamental, sob o risco de ficarmos aprisionados na fuga, tomando ficção por realidade e vice-versa. Não dá para manter uma euforia perpétua com base em estímulos artificiais. A ressaca inexoravelmente chega…
Sim, vamos aproveitar a Olimpíada, tentar resgatar seu espírito de “fair play”, de meritocracia, de convivência pacífica. Sim, vamos festejar o clima olímpico e elogiar a festa de abertura. Mas deixando o ufanismo boboca de lado, que é tão ridículo quanto o complexo de vira-lata e o derrotismo. É preciso um equilíbrio aqui, como defendo no meu livro novo sobre nosso jeitinho e o alto custo da malandragem. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Devemos dar uma trégua ao sofrimento de um país mergulhado em crise e com tantos problemas estruturais. Mas com maturidade. Sem essa reação infantil de quem acha que, agora, somos a última Coca-Cola do verão e que o mundo terá de nos engolir. Um pouco mais de humildade não faria mal algum. Mais realismo seria saudável. E sem deixar de lado o custo dessa festa toda e quais são nossas prioridades, pois a festa um dia acaba.
 
PS: A turma que ficou “horrorizada” com as vaias a Dilma na Copa vaiando o presidente Temer: medalha de ouro na hipocrisia. E medalha de ouro na estupidez também: que tipo de animal pode querer a volta da presidanta?!
 
Rodrigo Constantino

4 de ago de 2016

Peter Schiff prevê uma crise ainda pior do que a de 2008, que ele antecipou

Surrupiado do Rodrigo Constantino
 
O economista e consultor financeiro Peter Schiff, que ganhou notoriedade ao ter antecipado a crise de 2008, mesmo sendo ridicularizado por muitos durante seus alertas, prevê uma crise em breve maior do que aquela, que assustou o mundo todo. Segundo ele, a economia americana hoje está numa situação pior, justamente porque o Fed, o banco central americano, vem tentando consertá-la com uma política equivocada de “quantitative easing”.
Schiff acredita que é fundamental o país voltar a uma política de solidez monetária, citando o ouro como exemplo. Quando a taxa de juros estava em 1%, isso ajudou a criar a bolha imobiliária que estourou em 2008. Após mais de 7 anos de taxa de juros zero, o economista acha que o estrago será ainda maior. É pelo fato de o Fed se recusar a “desinflar” a bolha que Schiff antecipa uma grave crise com o dólar. Vejam:
 
Assistam vídeo no Rodrigo Constantino, no mesmo link
 
Hillary Clinton também é duramente atacada pela questão dos emails secretos. Schiff alega que ela não tem condições de governar o país, pois não é uma questão de incompetência, mas de mentira deliberada. Entre Hillary e Trump, Schiff prefere o último, apesar de reconhecer que Gary Johnson seria uma escolha mais alinhada ao seu libertarianismo.
 
Clinton certamente seria uma péssima presidente, mas Trump é uma incógnita. Schiff acha que nem ele sabe se acredita no que diz, que é apenas política, mas que pode, na prática, acabar sendo um bom presidente. O caminho para tanto é simples: reduzir o estado, os gastos públicos, e retornar a uma política monetária saudável, sólida.
A alternativa que os americanos têm como nação é voltar ao capitalismo de governo limitado, ou insistir nesse “caminho da servidão”, expressão que dá título ao livro mais popular de Hayek. Os eleitores estariam cansados das mentiras dos políticos, que repetem a falácia de que tudo vai bem na economia.
 
Em meu curso “Bases da Economia”, dedico nada menos do que 3 aulas ao tema moeda, crédito, bancos, padrão-ouro e ciclos monetários. É a grande contribuição da Escola Austríaca, que Schiff segue e eu também, o que me ajudou a antecipar a nossa crise brasileira ainda em 2010, enquanto todos celebravam a fase artificial de bonança.

2 de jul de 2016

Vou ver gente normal

Por Mario Sabino - O Antagonista
Hoje embarco para Paris.
A minha Paris não tem nada a ver com a Paris dos ladrões que vão torrar o nosso dinheiro por lá. Eu vou a Paris para ver gente normal.
Gente normal conversa sobre assuntos que não sejam apenas dinheiro e compras.
Gente normal lê livro.
Gente normal não vai a restaurante de boné, nem se veste como prostituta (a não ser que seja prostituta).
Gente normal mantém distância regulamentar de quem não conhece. Não cutuca você ou o chama de “tio” ou “amigão”.
Gente normal diz  “por favor”, “com licença” e “obrigado”.
Gente normal respeita fila.
Gente normal, ao volante, dá seta quando vira à direita ou à esquerda (e a seta está sempre no sentido certo).
Gente normal freia o carro para deixar o pedestre atravessar na faixa.
Gente normal não padece com atrasos de ônibus e trens (e é informada dos horários e itinerários nos pontos e estações).
Gente normal nem sequer imagina o que é ter esgoto a céu aberto.
Gente normal não nada em cocô.
Gente normal está acostumada a ver ruas limpas.
Gente normal não tem falta de luz toda semana.
Gente normal estranha fiação aérea.
Gente normal não sabe o que é buraco no asfalto.

Gente normal não tropeça em buraco na calçada.
Gente normal não gosta de pagar imposto, mas tem filho em escola pública e não tem medo de morrer de infecção em hospital público.
Gente normal se habitua à beleza.
Gente normal dificilmente morre assassinada.
Gente normal se escandaliza com assaltos.
Gente normal despreza corruptos e os coloca na cadeia e no ostracismo.
Gente normal não diz que terrorismo é justificável.
Gente normal admira o que lhe é superior e tenta fazer igual, sem achar que sofre de complexo de vira-lata.
Gente normal é uma conquista da civilização.
Paris é especial porque é normal.

4 de jun de 2016

Os estrangeiros sabem que você recebeu a mensagem de celular


Por Mario Sabino - Newsletter de O Antagonista de 03/06/2016

Por razões de ordem familiar, passei a conviver muito com estrangeiros expatriados. Todos estão no Brasil a trabalho. Todos acham o Brasil o fim da picada. Todos querem cair fora o quanto antes.

Eu não deveria me deixar levar pelas impressões de uns poucos gringos, mas elas confirmam os meus 54 anos de experiência como brasileiro. Aliás, confirmam os meus 54 anos de experiência com brasileiros.

Os estrangeiros expatriados que conheço não criticam tanto a criminalidade, os preços extorsivos, a precariedade das nossas cidades. Essa desolação é conhecida. O que não suportam mesmo é a nossa falta de compromisso.

Somos pouco ou nada confiáveis no plano profissional e pessoal. Dizemos uma coisa e fazemos outra. Quando fazemos. A especialidade nacional é frustrar expectativas.

Brasileiros são capazes de negar que concordaram com a minuta final do contrato que está ali à sua frente. Brasileiros são capazes de mentir que não receberam mensagens de celular mesmo quando aparece o sinal de que foram lidas. “Como não dá para confiar nas pessoas, é um dos piores lugares do mundo para trabalhar e tentar fazer amigos de verdade”, afirmam os estrangeiros das minhas relações.

Você ainda acha que estou sendo levado pelo impressionismo de gatos pingados que miam em outra língua? Então lá vai: brasileiros são capazes de garantir que eliminarão o esgoto da Baía de Guanabara até a realização dos Jogos Olímpicos e acabar promovendo a Olimpíada do Cocô. Não é a melhor forma de conquistar simpatia, convenhamos. E o pior é que, ao vir à tona esse problemão sanitário, reagimos afirmando que se tratava de intriga internacional. Pois é, os excrementos boiando ali do lado, como sinal de mensagem lida, e nós insistindo em negar a sua existência.

O Brasil vai mal nos rankings de saúde, educação e produtividade, mas vai ainda pior no de confiabilidade. Precisamos nos emendar.

28 de mai de 2016

Besteiras


"O que se pode esperar de um país que em seu Hino Nacional se declara 'Deitado Eternamente em Berço Esplêndido' e que cuja maior demonstração de Dinâmica Associativa é o Carnaval"?

Professor Roberto Campos
 
"Mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e tecnologia.”
 
Professor Roberto Campos
 

 
"Os comunistas brasileiros têm razão ao dizer que não é verdade que comam criancinhas. No "socialismo real", a preferência é por matar adultos."                                   
        Professor Roberto Campos
O PT é o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam.

20 de mai de 2016

A crença da "cultura da periferia" é coisa de gente do miolo mole

Reinaldo Azevedo - Veja impressa

E não é que o pensamento social moreno resolveu inventar? Num rasgo de criatividade, deu à luz uma jabuticaba teórica que chamarei aqui de Antropologia da Maldade. O seu objeto de estudo – ou de culto – são os índios bororos que moram nos morros do Rio. Ou os nhambiquaras do Capão Redondo, em São Paulo. Ou os caetés da periferia de Vitória. Ou os tupiniquins de qualquer aglomerado pobre do Brasil. A exemplo de boa parte das idéias inúteis que circulam no país, os antropólogos da maldade estão nos cursos de humanidades e ciências sociais das nossas universidades, mas também se espalham pelas redações e chegam à televisão. Ocupam ainda posições de estado. Sua sacerdotisa midiática é a atriz Regina "Casebre". A cada vez que ela proclama que "a periferia é o centro" – ou o contrário, sei lá –, somos remetidos imediatamente aos versos do inglês Auden (1907-1973): "And the crack in the tea-cup opens / A lane to the land of the dead". A fenda na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.

Sei que pôr Auden e Regina Casé num mesmo parágrafo pode parecer certo exagero. Comentando esses mesmos versos num texto da década de 70, o jornalista Paulo Francis (1930-1997) observou que a xícara de chá representava a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. Trincada a xícara – um mundo, então, que desaparecia –, abriu-se caminho para as tragédias das duas grandes guerras. Nossa "xícara" é outra. Não chegamos a ter uma "aristocracia", mas já tivemos algumas ambições. O certo é que a Antropologia da Maldade decidiu fazer da barbárie uma civilização.
Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a periferia é que têm de ensinar funk e rap aos "imperialistas" e aos "playboys", já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela "civilização" já não fosse a nossa. Perguntaram certa feita ao antropólogo francês Lévi-Strauss (na verdade, nascido em Bruxelas) se ele havia se identificado com os índios que estudara. "De modo nenhum!", respondeu. Os nossos antropólogos da maldade não chegam exatamente a se identificar com a "civilização" do morro e da periferia, mas têm por ela um respeito basbaque e reverencial. Lutam para preservá-la da nefasta influência da cultura central, esta nossa – vocês sabem, corroída pelo materialismo, pelo capitalismo e por um moralismo de fachada.

Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid, um dos refúgios do "pensamento" da esquerda contemporânea. Se a tentativa de ver a "cultura da periferia" como um sistema com valores próprios é só coisa de gente de miolo mole, uma banalidade, essa visão "preservacionista" da civilização da miséria pode assumir uma face cruel quando o assunto é, por exemplo, segurança pública. A polícia, segundo os antropólogos da maldade, estaria proibida de subir o morro sem o prévio consentimento da "comunidade", ou isso caracterizaria uma "invasão". A disposição de enfrentar o crime, que seqüestra as áreas pobres das cidades, é encarada como um ato de guerra, uma hostilidade a um país estrangeiro. E os mortos nos confrontos – exceção feita aos policiais, os "soldados invasores" – serão sempre vítimas inocentes do país agressor.
Lévi-Strauss poderia ensinar a essa gente que os costumes e hábitos de superfície das sociedades – e, pois, também dos morros e das periferias – são manifestações de estruturas de poder. Parecem-me indecentes os protestos de artistas contra a ação da polícia no Rio em contraste com o seu silêncio então cúmplice diante do fato de que os soldados do tráfico matam livre e impunemente nas favelas. A estupidez reacionária desses progressistas chega ao ponto de considerar que isso é coisa "lá deles", da "outra cultura", "matéria da autodeterminação dos povos". Será que devemos reagir ao assassinato dos nossos pobres com o mesmo distanciamento antropológico com que reagimos ao infanticídio entre os ianomâmis?

É improvável que Lévi-Strauss retorne ao Brasil, repetindo a façanha de 1934, quando veio dar aula na Universidade de São Paulo. Agora com 99 anos, completados neste 28 de novembro, é compreensível que tenha outras prioridades. Se o fizesse, talvez aproveitasse para adensar ainda mais a sua obra-marco, Antropologia Estrutural, ou, então, entre a melancolia e o escárnio, perceberia que fez muito bem em esculhambar o país em Tristes Trópicos, obra de 1955 com apontamentos sobre comunidades indígenas brasileiras e notas sobre a nossa cultura urbana. Sobrou até para os universitários, como não? Nos anos 30, eles demonstravam certo desprezo pelos livros de referência, preferindo os resumos. Sua curiosidade intelectual se igualava a uma inquietação gastronômica, e o que parecia inteligência era só disputa por prestígio e vanglória...

Regina Casé, em seu programa de TV: a barbárie vista como civilização

Se voltasse, o quase centenário estudioso teria a chance de conhecer, então, esse novo saber. Por enquanto, ele está mais bem adaptado ao clima e à geografia do Rio, mas floresce também em São Paulo, uma cidade mais vetusta, razão por que os antropólogos da maldade, por aqui, costumam se esconder dentro de batinas – ainda que meramente simbólicas – e se entregam a folias físicas e metafísicas com seus "correrias" de estimação. Quando Lévi-Strauss conheceu os índios bororos e nhambiquaras (os de verdade), sabia estar lidando com civilizações que estavam em outro estágio do domínio da natureza, mesmo para os padrões do Brasil, que já lhe pareceu, à sua maneira, tão primitivo, com suas cidades que iam do nascimento à decadência sem conhecer o apogeu.

Ele jamais demonstrou qualquer simpatia pelos grupos que estudou. Constituíam o seu material de trabalho. Bastava-lhe identificar as estruturas, o conjunto de relações, que fazem com que as sociedades sejam o que são – à sua maneira, de fato, cada uma delas encerra um mundo completo e dinâmico. Assim, é perfeitamente possível supor que a cultura ianomâmi seja eficiente para... um ianomâmi. E só outro indivíduo do mesmo grupo é capaz de propor questões pertinentes que mudem a sua história. Veja como sou multiculturalista hoje em dia. Mas, confesso, no tempo de padre Anchieta, meu negócio era catequizar a bugrada.
Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes, com estruturas simbólicas definidas pelos indivíduos das tribos, e a postura progressista de um estudioso implica deixá-los entregues à sua própria dinâmica, à sua cultura, a seus valores. Mais do que isso: "eles" teriam algo a nos ensinar, assim como se supõe, ainda hoje, que os silvícolas – veja como sou antigo – podem nos abrir as portas da percepção para a generosidade, a convivência pacífica com a natureza, a igualdade, o associativismo... Poucos se dão conta de que ser índio pode ser chato, difícil e cruel. O Brasil adotou o "bom selvagem" de Rousseau (1712-1778) – o "suíço, castelão e vagabundo", como o chamou o poeta português Fernando Pessoa –, mas não deu a menor bola para as ironias do livro Cândido, de Voltaire (1694-1778), este, sim, um francês legítimo, que fez pouco caso da idéia de um homem em harmonia com a natureza.

A periferia e o morro não são o centro. Continuarão a ser o morro e a periferia, e seus "valores" particulares não são senão a manifestação de uma utopia regressiva de basbaques ideológicos que imaginam converter um dia a linguagem da violência em resistência política. Aquela gente não é o "outro". Aquela gente somos nós, só que "sem fé, sem lei e sem rei": sem esperança, sem estado e sem governo.

Mas você sabem: eu sou muito reacionário. Progressistas são os antropólogos da maldade, desbravadores das veredas que levam à terra dos mortos.

15 de mai de 2016

Um negro contra cotas e contra as leis que proíbem a discriminação! Sua crença: individualismo, escola de qualidade, igualdade perante a lei e liberdade de expressão

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Walter Williams é negro, tem 74 anos e dá aula de economia na Universidade George Mason, na Virginia. Já foi engraxate e carregador de taco de golfe. Na juventude, chegou a preferir o radical Malcom X ao pacifista Martins Luther King. Williams está convencido: quem vence o racismo é o mercado, não a política de cotas. Num momento em que o assistencialismo, no Brasil, virou uma categoria de pensamento incontrastável e em que se dá a isso o nome de “redistribuição de renda”, vocês precisam ler a entrevista que ele concedeu a André Petry, publicada nas páginas amarelas da VEJA desta semana. Como todos nós, o economista tem as suas convicções, mas, antes de mais nada, tem alguns números um tanto desconcertantes sobre o tal “estado de bem-estar social”.

Walter Williams
Williams se considera um libertário e é um crítico ácido da interferência do Estado na vida dos indivíduos. O indivíduo, diga-se, está no centro de suas preocupações. Ah, sim: ele acha que Barack Obama acabará “sendo ruim para os negros”. Por quê? Porque “seu governo, na melhor das hipóteses, será um desastre igual ao de Jimmy Carter”. Abaixo, reproduzo trechos da entrevista, em que se encontram frases como estas:
 
– AVANÇO DOS NEGROS – “Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.”
– ESTADO E FAMÍLIA –
“Há anos, os Estados Unidos subsidiam a desintegração familiar”.
MÃE SOLTEIRA PREMIADA – “Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que, nos anos da minha adolescência, entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%.”
– SALÁRIO MÍNIMO –
“O salário mínimo, que as pessoas consideram uma conquista para os mais desprotegidos, é uma tragédia para os pobres. Deve-se ao salário mínimo o fim de empregos úteis para os pobres.”
– AÇÕES AFIRMATIVAS
“O ritmo do progresso dos negros entre as décadas de 40 e 60 foi maior do que entre as décadas de 60 e 80.”
– COTAS RACIAIS NO BRASIL –
“A melhor coisa que os brasileiros poderiam fazer é garantir educação de qualidade. Cotas raciais no Brasil, um país mais miscigenado que os Estados Unidos, são um despropósito.”
– LIVRE MERCADO E DISCRIMINAÇÃO –
“A melhor forma de permitir que cada um de nós – negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês – atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação”.
– LIBERDADE DE EXPRESSÃO –
“É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas”.
– AFRO-AMERICANOS –
“Essa expressão é uma idiotice, a começar pelo fato de que nem todos os africanos são negros. Um egípcio nascido nos Estados Unidos é um ‘afro-americano’?”
– ÁFRICA –
“A África é um continente povoado por pessoas diferentes entre si. Os vários povos africanos estão tentando se matar uns aos outros há séculos. Nisso a África é idêntica à Europa, que também é um continente, também é povoada por povos distintos que também vêm tentando se matar uns aos outros há séculos”.
*
Leia mais um pouco da explosiva sensatez de Walter Williams. A íntegra da entrevista está na revista.
(…)

Em que aspectos a vida dos negros hoje é pior [nos Estados Unidos]?Cresci na periferia pobre de Filadélfia entre os anos 40 e 50. Morávamos num conjunto habitacional popular sem grades nas janelas e dormíamos sossegados, sem barulho de tiros nas ruas. Sempre tive emprego, desde os 10 anos de idade. Engraxei sapatos, carreguei tacos no clube de golfe, trabalhei em restaurantes, entreguei correspondência nos feriados de Natal. As crianças negras de hoje que vivem na periferia de Filadélfia não têm essas oportunidades de emprego. No meu próximo livro, “Raça e Economia”, que sai no fim deste mês, mostro que, em 1948, o desemprego entre adolescentes negros era de 9.4%. Entre os brancos, 10.4%. Os negros eram mais ativos no mercado de trabalho. Hoje, nos bairros pobres de negros, por causa da criminalidade, boa parte das lojas e dos mercados fechou as portas. (…)

Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.
 
O estado de bem-estar social, com toda a variedade de benefícios sociais criados nas últimas décadas, não ajuda a aliviar a situação de pobreza dos negros de hoje?(…)
Há anos, os Estados Unidos subsidiam a desintegração familiar. Quando uma adolescente pobre fica grávida, ela ganha direito a se inscrever em programas habitacionais para morar de graça, recebe vale-alimentação, vale-transporte e uma série de outros benefícios. Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Muitas eram mandadas para o Sul, para viver com parentes. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que nos anos da minha adolescência entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%. O salário mínimo, que as pessoas consideram uma conquista para os mais desprotegidos, é uma tragédia para os pobres. Deve-se ao salário mínimo o fim de empregos úteis para os pobres.
(…)
 
As ações afirmativas e as cotas raciais não ajudaram a promover os negros americanos?A primeira vez que se usou a ex-pressão “ação afirmativa” foi durante o governo de Richard Nixon [1969-1974]. Os negros naquele tempo já tinham feito avanços tremendos. Um colega tem um estudo que mostra que o ritmo do progresso dos negros entre as décadas de 40 e 60 foi maior do que entre as décadas de 60 e 80. Não se pode atribuir o sucesso dos negros às ações afirmativas.
(…)

Num país como o Brasil, onde os negros não avançaram tanto quanto nos Estados Unidos, as ações afirmativas não fazem sentido?A melhor coisa que os brasileiros poderiam fazer é garantir educação de qualidade. Cotas raciais no Brasil, um país mais miscigenado que os Estados Unidos, são um despropósito. Além disso, forçam uma identificação racial que não faz parte da cultura brasileira. Forçar classificações raciais é um mau caminho. A Fundação Ford é a grande promotora de ações afirmativas por partir da premissa errada de que a realidade desfavorável aos negros é fruto da discriminação. Ninguém desconhece que houve discriminação pesada no passado e há ainda, embora tremendamente atenuada. Mas nem tudo é fruto de discriminação. O fato de que apenas 30% das crianças negras moram em casas com um pai e uma mãe é um problema, mas não resulta da discriminação. A diferença de desempenho acadêmico entre negros e brancos é dramática, mas não vem da discriminação. O baixo número de físicos, químicos ou estatísticos negros nos Estados Unidos não resulta da discriminação, mas da má formação acadêmica, que, por sua vez, também não é produto da discriminação racial.
 
Qual o meio mais eficaz para promover a igualdade racial?Primeiro, não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei. Mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa. A melhor forma de permitir que cada um de nós – negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês – atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação. Mas, para ter um livre mercado que mereça esse nome, é recomendável eliminar toda lei que discrimina ou proíbe discriminar.
 
O senhor é contra leis que proíbem a discriminação?Sou um defensor radical da liberdade individual. A discriminação é indesejável nas instituições financiadas pelo dinheiro do contribuinte. A Universidade George Manson tem dinheiro público. Portanto, não pode discriminar. Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar. Acredito na liberdade de associação radical. As pessoas devem ser livres para se associar como quiserem.
 
Inclusive para reorganizar a Ku Klux Klan?Sim, desde que não saiam matando e linchando pessoas, tudo bem. O verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à idéia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de idéias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que se associem em torno de ideais que julgamos repugnantes. O mesmo vale para a liberdade de expressão. É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas.
 
O senhor exige ser chamado de “afro-americano”?Essa expressão é uma idiotice, a começar pelo fato de que nem todos os africanos são negros. Um egípcio nascido nos Estados Unidos é um “afro-americano”? A África é um continente, povoado por pessoas diferentes entre si. Os vários povos africanos estão tentando se matar uns aos outros há séculos. Nisso a África é idêntica à Europa, que também é um continente, também é povoada por povos distintos que também vêm tentando se matar uns aos outros há séculos.
(…)
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Surrupiei da Veja.com; do Reinaldo Azevedo; li a entrevista na versão impressa. Enfim, é o "socialismo de resultados".
Não sou socialista.

13 de mai de 2016

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  • Nos limites da imundície humana.

https://youtu.be/gbGAxfYGJNQ

  • Sertanejo, SertaNoJO e BoSTAnejo? Qual a diferença?


  • De onde vem a Sebosidade do Luan Santana?

https://youtu.be/wp_-Bnm6hDo

  • Como fazer um HIT SERTANOJO!

https://youtu.be/cnu6ik3mFb4

  • Lucas Lucco - Mozão

A ordem sem progresso e a corrupção

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo (18/09/05)

Superado o embate esquerda-direita, o que se vê agora é o embate entre o Brasil moderno e o Brasil arcaico
O Brasil que ganhou visibilidade nos últimos meses e teve seu momento litúrgico mais importante na sessão de quarta-feira da Câmara dos Deputados, quando da cassação do deputado federal Roberto Jefferson, não é o Brasil da corrupção e do moralismo relutante. Tampouco é esse um embate entre direita e esquerda. Os angustiantes capítulos dessa novela nos falam de outro Brasil, que agoniza mas insiste. O embate é entre o arcaico e o moderno. Nos costumes antigos, o Brasil arcaico tem insistido em ficar. Também na vida política e na vida social. E ainda é forte entre nós a cultura da permanência, o arcaico sobrevivendo, demorando-se além de seu tempo. Na política não há especialistas na arte de bem morrer, o que é uma pena. No passado era malvista a resistência do moribundo a morrer quando chegava sua hora. Mas havia os que tratavam de convencê-lo a partir.
Sempre que se fala em corrupção não são poucos os que se surpreendem. Menos por sua ocorrência e muito mais pelo conceito estranho e negativo para coisa conhecida e aceita. A população sabe bem o que é o roubo e o abomina e pune, até mesmo com a cruel violência do linchamento. Mas corrupção já é outra coisa, dinheiro que os mandões desde os tempos do Império podiam aplicar em benefício dos desamparados, dos pobres e carentes. Não havia distinção, e em muitas partes continua não havendo, entre o público e o privado, conceitos provenientes de sociedades que tiveram outra história. A República se fez à custa da transigência em relação a esses e outros limites.
Quem ataca a corrupção acaba atacando os pilares da persistente política brasileira do clientelismo e do populismo, os fundamentos da chamada dominação patrimonial. Mesmo em nossas grandes e supostamente modernas cidades, esse é o meio pelo qual milhões de brasileiros têm acesso a algum benefício público. Mesmo para ter direitos assegurados em lei, milhões de brasileiros dependem do patrocínio e da proteção de algum pai da pátria e sua rede de dependentes e serviçais, até mesmo no supostamente burocrático e neutro guichê de repartição pública. Em parte, o Congresso Nacional é a instituição que reflete esse Brasil real.
O Brasil arcaico não vê corrupção em diferentes modos pelos quais se dá a transferência de dinheiro do público para o particular e do particular para o público em nome de interesses e conveniências que não podem ser reconhecidos por escrito. A lei, que expressa os anseios do progresso, fica postiça em face dos anseios do costume e da ordem, do chamado Brasil profundo, que não está apenas lá longe nos sertões, mas está também aqui mesmo no substrato da nossa consciência coletiva e de nossas tradições mais antigas, na nossa tolerância e na nossa indiferença. Estamos acostumados. O embate entre a ordem e o progresso é antigo entre nós. Não por acaso foi colocado pelos republicanos na Bandeira Nacional como lema da conciliação e de todos, anunciando o progresso lento, regulado pela ordem e pela tradição. Somos prisioneiros desse impasse e nada indica que ele será superado no nosso tempo.
Os cientistas sociais previram que o Brasil moderno venceria o Brasil arcaico. Mas a lentidão da nossa história mostra que as coisas não são bem assim. Todo esse confuso enredo político destas semanas é cabal demonstração de que mesmo um partido político como o Partido dos Trabalhadores, que se pretende o partido da história e o partido da modernidade, o verdadeiro partido de esquerda, tem uma prática política carregada de arcaísmos. Não só nas ações ilícitas que vêm sendo denunciadas. Mas também nos arranjos políticos corporativos que o sustentam, liames tanto com um novo clientelismo rural quanto com um novo populismo urbano. Ao se propor como um partido popular de excluídos, e não propriamente como um partido socialista de trabalhadores, apesar do nome, o PT se mostra como um partido do Brasil arcaico na sua política social neopopulista e neoclientelista, como é evidente na suplência caritativa de programas como o Bolsa-Família. Uma política necessária, aliás, mas não decisiva nem transformadora. O PT não é um partido de esquerda porque, nessa sua orientação, não se propõe como um partido de emancipação do povo de suas carências e dependências, não se propõe como um partido de libertação, de rompimento da subalternidade dos condenados a prestar homenagem aos donos do poder. Em vários rincões remotos do País ouvi de sertanejos essa expressão, como magoado nome da servidão em que muitos ainda vivem, tendo de, por qualquer motivo, pedir a bênção a quem comanda e decide os direitos dos outros. A corrupção lubrifica essa engrenagem.
No entanto, na lentidão característica de nossa história, tem havido avanços. Esta semana foi adversa para o Brasil arcaico, de direita ou de esquerda. A prisão preventiva de um ex-governador e ex-prefeito, a cassação do deputado que fez a coerente justificativa da indistinção entre público e privado, a revelação das bases do poder retrógrado do presidente da Câmara. E também o encaminhamento dos pedidos de cassação dos novos representantes da ordem. O Brasil legal deu passos para passar a limpo o Brasil do costume, para trazer esquerda e direita ao mundo moderno.
Mas ao mesmo tempo, apesar da crise, o declínio do prestígio do presidente, inferior ao previsível e racional, mostra que ele é sustentado pelo próprio carisma, relativamente a salvo do que ocorre com o PT, um carisma que é a expressão mais densa do Brasil arcaico, místico, que trocou a esperança política pela esperança religiosa, ainda que com cara partidária. Os votos contrários à cassação do deputado, que somaram um terço do total, expressam a mesma coisa. E toda a contradição de ordem e progresso chegou ao Supremo Tribunal Federal: ficou clara no habeas-corpus dado aos deputados petistas que estão a caminho da cassação. O Brasil arcaico se protege nos formalismos da lei e dos ritos do Brasil moderno. Necessitam-se reciprocamente.

* José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

12 de mai de 2016

Os meninos-lobo - Claudio Moura Castro - publicado na VEJA

Cláudio de Moura Castro

Os meninos-lobo

"Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade
civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo"

No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar. 

Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos?

A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano.

O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível – pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar.

"Vivemos em um mundo de palavras", diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. "Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza." Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem.
Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma "inteligência futebolística" que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido.
Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento". Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística.
Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na 4ª série 50% dos brasileiros são funcionalmente analfabetos. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a capacidade linguística do aluno brasileiro corresponde à de um europeu com quatro anos a menos de escolaridade. Sendo assim, o nosso processo educativo deve se preocupar centralmente com as falhas na capacidade de compreensão e expressão verbal dos alunos.
Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados.
No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo.

Claudio de Moura Castro é economista